Lon Bové
Lon Bové é músico, cantor, guitarrista, compositor e educador norte-americano, nascido em Cincinnati, Ohio, e radicado há décadas em Salvador, Bahia. Sua trajetória artística é marcada por uma característica singular: em vez de apenas transportar a tradição do blues norte-americano para o Brasil, Bové desenvolveu, a partir de sua experiência na Bahia, uma linguagem própria construída no encontro entre a música negra dos Estados Unidos e as matrizes afro-brasileiras.
Bové possui mestrado em Educação pela University of Alabama. Musicalmente, Bové traz como base o blues, mas sua formação artística incorpora também o soul, o rock, o Rhythm & Blues, a música de New Orleans — incluindo a tradição das Second Lines — e elementos da surf music. Em Salvador, essa bagagem passou a dialogar com o samba, o ijexá e outras manifestações musicais de matriz afro-brasileira. O resultado é uma sonoridade que procura aproximar duas importantes tradições da música negra do Atlântico.
Álbum M.O.T.H. e as nove indicações ao Grammy
Um dos principais marcos da carreira de Lon Bové é o álbum M.O.T.H., trabalho autoral que lhe rendeu nove indicações ao Grammy. Entre as músicas do álbum está “My Angel”, gravada com o cantor e compositor norte-americano Michael McDonald. O repertório inclui ainda “Believe Me”, “Bernadine”, “Real Bad Habit”, “The Moth”, “Eye to Eye”, “Arenal” e “It’s Too Late”.
A participação de Michael McDonald em “My Angel” representa uma conexão importante entre a trajetória internacional de Bové e sua produção autoral.
A escolha da Bahia
A relação de Bové com a Bahia foi além de uma temporada ou de uma experiência artística. Radicado em Salvador, ele passou a pesquisar os diferentes ritmos e manifestações musicais do estado e a incorporá-los ao seu trabalho. Essa vivência tornou-se o fundamento de sua proposta artística: estabelecer um diálogo entre o blues e o R&B norte-americanos e a musicalidade brasileira, particularmente aquela ligada às tradições afro-baianas.
Essa perspectiva também explica o caráter multicultural de sua produção. Bové não se apresenta simplesmente como um músico americano que toca blues no Brasil. Sua obra procura compreender as conexões históricas e musicais existentes entre diferentes expressões da diáspora africana e transformá-las em uma linguagem contemporânea.
Banda Terráquea
Em 2013, Bové criou, em Salvador, a Banda Terráquea, projeto que se tornou o principal veículo dessa pesquisa musical. A banda combina Rhythm & Blues com elementos das matrizes afro-brasileiras e reúne músicos de destaque da cena baiana. Bové atua como líder, cantor e guitarrista.
A Terráquea também traduz uma visão de mundo que acompanha a carreira de Bové: a música como ferramenta de conexão entre pessoas e culturas e como instrumento para estimular atitudes em defesa do planeta. O próprio conceito da banda associa sua produção artística a ações culturais, educacionais e socioambientais.
Ao longo dos anos, o grupo participou de festivais, projetos culturais e apresentações em Salvador e outras cidades baianas. Sua formação reuniu músicos ligados a diferentes segmentos da música baiana, incluindo profissionais que já trabalharam com artistas de grande projeção nacional.
Toque Bahia e atuação social
A educação musical também está presente em projetos sociais idealizados por Bové. Entre eles está o Toque Bahia, iniciativa que levou atividades musicais a crianças do bairro de Alagados, em Salvador. O projeto fazia parte de uma visão mais ampla de Bové sobre a música como ferramenta de inclusão, desenvolvimento e transformação social.
Outra frente de sua atuação foi o Atitude Planeta Verde, projeto desenvolvido pela Banda Terráquea para aproximar música, educação e consciência ambiental. Em 2018, por exemplo, uma edição do projeto no Teatro da Cidade, em Salvador, reuniu apresentações musicais e um coral formado por estudantes e integrantes do grupo cultural Bagunçaço, com atividades voltadas à preservação da água e do planeta.
No ano seguinte, o projeto ganhou continuidade com o espetáculo “Água Vida Pura Vida”, que contou com a participação de Saulo Fernandes, do Olodum Juvenil e de estudantes. A iniciativa combinava música com ações educativas sobre o impacto do plástico e a preservação dos recursos naturais.
Projeto Rádio Terra
Essa relação entre música e educação ganhou uma nova dimensão com o Projeto Rádio Terra, associação sem fins lucrativos fundada e presidida por Lon Bové.
O projeto tem como objetivo democratizar o acesso ao ensino musical, oferecendo aulas gratuitas pela internet. O programa contempla instrumentos como violão, guitarra, percussão, bateria, teclado, saxofone, trompete, trombone e gaita, além de canto. Bové também participa diretamente como instrutor, utilizando repertórios clássicos do blues e da música popular para ensinar técnicas instrumentais.
A proposta do Rádio Terra parte de uma ideia simples, mas ambiciosa: utilizar a tecnologia para diminuir as barreiras financeiras e geográficas que muitas vezes impedem uma pessoa de ter acesso à educação musical. O projeto também relaciona a prática musical ao desenvolvimento de disciplina, criatividade, concentração e outras habilidades para a vida.
LON BOVÉ - M.O.T.H.
M.O.T.H. é o álbum autoral de Lon Bové que traduz o encontro entre o blues, o soul e o R&B norte-americanos e sua vivência musical na Bahia.
Com nove indicações ao Grammy, o disco reúne composições que revelam a identidade singular de Bové como guitarrista, cantor e compositor, incluindo “My Angel”, em parceria com Michael McDonald.
Um trabalho que conecta diferentes culturas e tradições da música negra através de uma sonoridade própria e contemporânea.
A música como encontro.
Mais do que uma fusão de gêneros, a obra de Lon Bové pode ser entendida como uma pesquisa sobre encontros: entre Estados Unidos e Brasil, entre tradição e criação contemporânea, entre música e educação e entre arte e responsabilidade social.
Sua guitarra parte da linguagem do blues, mas encontra no samba, no ijexá e em outras manifestações afro-baianas novas possibilidades rítmicas e culturais. Da mesma forma, sua experiência como educador influencia a maneira como concebe seus projetos artísticos: o palco, a sala de aula e a comunidade são espaços diferentes de uma mesma atuação.

